Ficha - Chertan de Cérbero

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Ficha - Chertan de Cérbero

Mensagem por Chertan de Cérbero em Dom Abr 12, 2015 6:48 pm


Personagem

Nome: Chertan Galaaz.
Idade: 23 anos.
Sexo: Masculino.
Signo: Leão.
Veste: Armadura de Prata de Cérbero.


Aparência: “Um anjo que veio à terra trazer a salvação”. Assim foi descrita a aparência do jovem há longos anos, quando não passava de um molecote marrento e teimoso. Porém, esse menino cresceu, e a vida deixa cicatrizes, no corpo e no ser, e se não forem fortes o suficiente para lhe tirar o ar angelical e quebrar a impressão inicial de pureza por seus traços, são fundas o bastante para forjar e moldar a alma e o caráter, e disso não há como discordar.

No auge de seu metro e setenta e três, um pouco abaixo da média de estatura de homens em geral, Chertan apresenta sobre quase toda extensão de sua pele alva, clara como o marfim, diversas cicatrizes de combates e missões passadas, quando junto de seu antigo mestre, batalhava por causas duvidosas e fazia o que lhe era ensinado sem questionamento, trazendo a ruína de muitos. Cada pequena marca era como uma memória a ser revivida, e uma vida que fora tirada de alguém. Não se orgulhava disso, assim como não parecia demonstrar pesar pelo passado.

Os exatos setenta e cinco quilos são muito bem distribuídos pela extensão de seus músculos, que apesar de não serem nada exagerados, eram de fato bem trabalhos e aptos a suportar as dificuldades que a vida escolhida exigia. Nunca fora do tipo grande, com bíceps enormes e coisas do tipo, o corpo de aparência esguia e bem definida sempre lhe apeteceu as necessidades, contando sempre com a agilidade de movimentos e pensamentos acima da força propriamente dita.

A face diverge em certo tom do resto do corpo, não demonstrando cicatriz alguma. Talvez tenha sido sorte, talvez pura vaidade, mas Chertan jamais recebera um golpe no rosto que lhe tivesse deixado marcas. Não sabia dizer se teria sido proposital ou casual, apenas agradecia em silêncio por ser capaz de reconhecer o rosto que via no reflexo de espelhos. Os traços faciais são finos e delicados, o que ajuda e sempre ajudou a lhe dar o ar puro, mesmo que imponente.

Os cabelos loiros são extremamente lisos, mantendo-se sempre penteados da mesma forma, talvez por teimosia da gravidade. Possuem um tom levemente dourado, de fato angelical, enfeitando aquela cabeça e privilegiando o rosto belo. O ornamento final, e talvez o mais importante, são os olhos. Impressionantes, eu diria, de um azul tão profundo, e ao mesmo tempo tão suave. É capaz de passar a sensação de serenidade para qualquer um que o encare, como o som do mar sobre as calhas de um porto, que pacífico, mantém oculto sobre si toda a profundidade dos oceanos e sua força, capaz de devastar cidades inteiras. Chertan consegue misturar em seu aspecto físico a imponência de um guerreiro experiente com a sutileza e pureza de um iniciante, dando-lhe um ar de exuberância, como um magnífico animal a ser apreciado.



Psicológico: A mente humana possui vertentes nunca exploradas e se mostra algo de difícil compreensão. Não apenas no sentido científico, tratando do psicológico também é possível que vejamos diferentes tipos de comportamento em um mesmo ser, que muitas vezes diante da simples análise dos fatos no presente se mostram incoerentes, mas se pegarmos as experiências de vida e toda a história individual de cada um em uma análise mais profunda do ser, o entendimento será mais simples. E Chertan pode ser citado como o perfeito exemplo disso.

Sua lealdade à Athena como Cavaleiro de Prata é de fato, incontestável, mas sua motivação e seus objetivos são, no mínimo, motivo para debate. O rapaz tem em si um ar sábio e experiente que diverge em muito de sua idade, e isso se deve a suas experiências passadas, que o moldaram como um ferreiro molda o metal, no que é hoje. À um primeiro olhar analítico, Chertan se mostra alguém sutilmente arrogante, com uma deficiência perceptível de humildade, apesar da educação impecável ao tratar tanto com amigos, inimigos ou pessoas que nunca viu na vida.

Criado para ser o “messias” da nova era, antes um desafiador dos deuses, incluindo aí a própria Athena, Chertan encontrou na deusa sua redenção, entregando seus dons na mão do Santuário para que suas capacidades fossem devidamente direcionadas à uma boa causa, ou pelo menos, com boa intenção. Lida a vida como um caminho que deve ser percorrido, pelo qual você sofre e causa sofrimento.

Conhecendo-o mais profundamente, é possível entender que Chertan fora um prodígio desde sua infância, mas ao mesmo tempo, fora usado por seu antigo mestre para os meios mais errados, e causou dor e sofrimento a todos que encontrou por longos anos. Cicatrizes que marcam sua pele e alma eternamente. O jovem é capaz de relembrar as mortes que causou e as famílias que destruiu toda manhã ao acordar, como uma maneira própria de punição por seus crimes.

É preciso entender, porém, que Chertan não busca e jamais buscará a salvação de sua existência, assim como, não se agride psicologicamente com seu passado. O jovem alega com veemência que há ao fim da vida uma justiça divina, e mesmo batalhando diante de deuses tão reais quanto ele próprio, jamais abriu mão de suas crenças primárias. Se porta, e prefere ser tratado como uma arma particular, a mão esquerda do Santuário, e se dispõe a cumprir toda e qualquer tarefa à qual for designado, sem a preocupação de buscar um motivo ou uma razão. É sua maneira de reestabelecer o equilíbrio natural em sua própria vida, para que encontre um sentido em seu caminho quando chegar a hora de partir.



Habilidades e Particularidades:  -x-



História:

A passagem conhecida como vida nada mais é do que um enorme quebra-cabeça. Enquanto sua linha do tempo se encaminha para a frente, as peças, também conhecidas como memórias e feitos, vão se encaixando. Claramente, existem alguns detalhes importantes sobre a vida de cada um de nós que somos incapazes de lembrar ou mesmo de saber, assim como a vida daqueles que nos cercam, cujos nuances são deixados em oculto para que se mantenha o respeito e o limite da privacidade, e mesmo que as vezes não lhe contem, são esses nuances e detalhes mínimos que completam o quebra-cabeça particular de cada um, na maioria das situações, aquela peça que parece faltar nada mais é do que a memória de outro, que a manteve oculta por seus próprios motivos, impedindo-lhe de terminar seu quadro.

E partindo desse princípio é que começaremos hoje nossa história, em uma tentativa talvez falha de montar o meu próprio quebra-cabeça ainda incompleto, já que minha passagem ainda não chegou ao fim. Começamos então pela peça principal, esta que me contam, já que por mim mesmo sou incapaz de recordar. Foi no ano de 2345, em uma tarde ensolarada, como muitas outras de fato, na belíssima Istambul. Mais um turco nascia naquele momento, batizado com o nome de uma estrela, Chertan Galaaz, no caso, esse que vos conta essa breve crônica.

O destino da criança, de família pobre, parecia já ter sido selado no momento de seu nascimento. Desde quando se ouviu o choro ecoar pelas paredes falhas dos cortiços dos subúrbios de Istambul, percebeu-se um ressoar diferente. Mas ainda era impossível, claro, definir exatamente o que havia de tão especial na criança, talvez por sua miudeza, talvez pela imaturidade de um recém-nascido, motivos óbvios e que não devem ser aprofundados por não haver necessidade.

Cresci em meio às ruas de Istambul, como uma de tantas crianças que corriam por aí jogando pedras e brincando entre si. Não há nada de muito especial que tenha ocorrido, pelo menos não até seus cinco anos, quando como em um surto, diante da debandada de búfalos de uma criação próxima, o pequeno teve sua primeira experiência com o cosmo, algo que mudaria a vida de uma criança para sempre. Lembro-me como se fosse ontem, algum moleque mais velho tinha ido tentar roubar o leite de búfalo que uma família das redondezas vendia, e ao ser pego com a mão na massa, em sua fuga, acabou irritando um dos búfalos, que o perseguiu.

Durante essa pequena brincadeira, o animal acabou arrebentando o portão que mantinha os búfalos presos, e com o alvoroço causado pelo dono assustado, houve uma debandada. Acredite se quiser, mas búfalos são criaturas extremamente fortes, e quando correram em grupo pelas ruas da cidade, atropelando uns aos outros, atingindo paredes e todas as pessoas que encontravam pelo caminho, foi um verdadeiro pandemônio. E lá estava o menino Chertan, no meio da rua com alguns amiguinhos de infância, apostando quem quebraria um jarro de cerâmica primeiro com uma pedra, todos com sua mira péssima.

Uma multidão surgiu ao longe, na esquina, eram os moradores e os passageiros, corriam como loucos, como se uma legião os perseguisse. Tinha apenas sete anos na época, mas era uma criança ligeiramente esperta, quando uma multidão surge correndo e mira em sua direção, a regra é clara, corra para algum lugar seguro, e lembro-me de ser exatamente o que fiz. Os pés pequenos se adiantaram, quase que como puro reflexo ou instinto de sobrevivência, lançando-me na primeira porta aberta que encontrei, era uma mercearia de baixa qualidade a qual muitas vezes preguei minhas peças junto das outras crianças locais.

Desviei bem do caminho, mas lembro-me que resolvi olhar para trás. Quando a multidão de pessoas passou, pude notar uma pequena mancha caída no chão. Não sei ao certo lhes contar o nome do pequeno, mas era um menino que morava próximo a mim, o qual brincava com as outras crianças, e normalmente eu estava entre eles. Havia se assustado ao ver as pessoas e paralisou, com o corpo imóvel, fora atropelado pelo grupo que corria em pânico, e agora jazia caído, semimorto.

Avancei, novamente mais por instinto e reflexo do que realmente por vontade própria. Era um amiguinho que via quase todos os dias, e a necessidade de ajudar a criança fora grandiosa. Nesses momentos vejo que o próprio cosmo trabalha como uma força natural, guiando acontecimentos durante o tempo, estes que gostamos de denominar destino, e pode-se dizer que aquilo tenha ocorrido, ou quem sabe, para os mais céticos, mera coincidência do momento. Quando ouvi um som fortíssimo atravessando o ar como trovões, assustei-me também.

A cena que vi foi algo que por muito tempo me impressionou muito, e posso vê-la em minha frente enquanto estou prestes a descrever para vocês tão vividamente que poderia dizer estar se repetindo. Eu estava abaixado, ambos os joelhos flexionados, as mãos agarradas no braço mole e gélido da outra criança caída enquanto uma leve poça de sangue se formada na altura de sua cabeça. O som dos cascos rompendo o solo era altíssimo, como se trovões ricocheteassem as rochas das paredes ao redor.

Na esquina, de onde antes saíra tanta gente, surgiram as criaturas enormes e cheias de pelo. Os olhos dos búfalos vidrados, os chifres como grande estruturas prontas para despedaçar tudo que encontrassem pela frente. Era uma manada contra dois meninos. Nesses momentos, em que a adrenalina corre mais rápido do que o próprio sangue em seu corpo, podemos notar que o mundo ao seu redor desacelera. Lembro-me com perfeição de ver pela periferia de meu campo de visão os adultos da mercearia paralisados incapazes de reagir, afinal, eles morreriam junto comigo e com o outro menino caso entrassem para nos ajudar.

Meu corpo, porém, parecia simplesmente se recusar a encolher e aceitar a morte com tanta facilidade. Me pus de pé, os animais correndo de forma desenfreada, não me restariam nem mais dois segundos de vida antes de ser destruído completamente pelos cascos e pelas cabeças poderosas. As mãos, na época pequenas e finas, magras como de alguém que pouco via o ar de alimentos, se adiantaram a entrar na frente do corpo, como se esperassem segurar no músculo as criaturas que avançavam. Ficou conhecido como milagre, mas muito tempo depois, descobri que aquele momento de minha vida significou o verdadeiro “turning point”, o despertar de meu Cosmo.

Gritei, com toda a força que meus pulmões na época permitiam, um grito forte e repleto de medo do que estaria prestes a acontecer, e naquele momento, algo dentro de mim reagiu. Lembro-me de manter os olhos abertos até quando foi possível, e pude ver um brilho azulado surgir diante de meus olhos enquanto uma massa de energia saía de meu corpo como fogo. Foi como uma explosão de luz e eu era o centro dela. O cosmo saiu de meu corpo como se entrasse em combustão, se expandindo e batendo contra os búfalos que estavam prestes a me atropelar, quando menos se esperava, fui eu quem atropelei os búfalos.

Perdi a consciência no instante seguinte e não sou capaz de me lembrar da peça que nos conta como ficou tudo, mas pelos relatos e pelo que pude ver mais tarde com meus próprios olhos, eu havia lançado os búfalos longe, além de ter destruído algumas paredes, não apenas com a força do cosmo, mas com o corpo dos próprios animais que foram arremessados pelo impacto. Antes de prosseguirmos, precisamos entender alguns detalhes cruciais que se tornarão parte da história, coisas que são pontos chave e de extrema importância.

A principal religião cultivada em Istambul é o Islamismo, não diferente de minha família, nasci e fui criado até certo ponto nos princípios Islão de vida, o que significa crer em uma mitologia monoteísta e na volta de um messias. E cá entre nós, um menino de sete anos que explode luz azul e interrompe uma debandada de búfalos, lançando-os metros de distância e com força o suficiente para destruir paredes, era o mais simples e claro sinal de que o novo messias havia chegado.

Daquele ponto em diante, passei a ser tratado como o salvador da humanidade. Diziam os chamados sábios que eu tinha sido uma providência divina, enviado para purificar a terra. Minha família, antes em necessidade, passou a receber doações de todos os cantos por onde o Islamismo era cultivado, e eu recebia visitas de pessoas das mais diversas partes do mundo, tendo que prometer abençoar suas famílias e suas vidas para todo o sempre. Eu era pequeno, e confesso que tive tudo aquilo muito bem fixado em minha mente, existe um momento em que se está em meio a loucura, que ela passa a ser real, e por muito tempo, aquilo foi real. Eu era o messias do novo mundo, salvaria a humanidade ao meu redor e purificaria a terra, sendo capaz de erradicar o mal.

Porém, mesmo meninos que se tornavam lendas de novos messias uma hora deixavam de ser assim tão interessantes. Nunca demonstrei poderes milagrosos aos olhos dos outros, pois meu cosmo era incapaz de curar suas doenças e seus males, assim como diziam que o messias deveria fazer. Não fui capaz de dar novos olhos a um cego, assim como não pude erradicar a doença que corrompia o corpo de uma menina, e aos poucos, tornava-me apenas um mentiroso, fadado a destruição.

Para uma criança, quando lhe é dada a esperança de ser a salvação, e começam então boatos de que é apenas mais um farsante por aí buscando fama e aproveitar da boa vontade dos outros, o impacto é fortíssimo, e claro, sempre há alguém disposto a se aproveitar do momento de fraqueza, e podemos dizer que foi exatamente isso que um homem, que se fazia ser conhecido apenas como Lionel, fez.

Lembro-me da visita dele. Minha família já não mais contava com tantas doações, mas vivíamos bem, pelo menos muito melhor do que antes. Meu pai havia sido inteligente, guardava uma parte de tudo que recebíamos para uma emergência, e quando os presentes começaram a diminuir até cessar de vez, tínhamos alguma “gordura para gastar”. O problema real era o psicológico da criança, o meu próprio, abalado pela perda da crença de todos que o cercavam.

Já não mais podia caminhar na rua, antes adorado e recebido com flores, era agora tido como farsante, arremessavam laranjas e frutas podres de aparência e odor nada agradável, e para a mente infantil, ainda em desenvolvimento, isso nada mais é do que o fim. Claro que haviam demorado três longos anos até que o menino messias se tornasse o aproveitador, mas no auge de meus dez anos e com o abalo emocional, aquilo se tornaria o princípio de minha queda.

Mas vamos a Lionel, o passo seguinte, como o martelo que derruba as colunas de uma casa e a põe ao chão. Apareceu como um devoto do menino messias, alguém que se recusava a acreditar na história da farsa e havia ido lá por si mesmo conhecer a mim. Senti-me lisonjeado, poucas vezes agora recebia atenção de alguém, muitas vezes nem parentes mais distantes tinham vontade de me ver, e a atenção daquele homem fora quase que a salvação. Disse que não tinha onde ficar, e hospedou-se em nossa casa, compartilhando de receitas e especiarias que dizia ter acumulado durante o caminho de sua longa viagem. Havia vindo de Barcelona, do outro canto do continente, apenas para conhecer o pequeno Chertan.

O ser humano, porém, é o mais traiçoeiro de todas as criaturas vivas sobre a face da terra. Junto com a tão badalada capacidade de pensar, veio a gana e a necessidade de se sobressair sobre um outro, como se precisasse demonstrar poder, e com isso, surgiu a enganação, a traição, e os aproveitadores de verdade. Em uma bela noite, algumas semanas após a chegada de Lionel, uma nova explosão de cosmo aconteceu. Naquela madrugada fatídica, a casa inteira desmoronou.

Lembro-me de acordar desesperado em meio a escombros, sendo resgatado pelo próprio Lionel, já em prantos. Disse-me que meu poder havia despertado por mais uma vez, mas agora enquanto eu dormia, provavelmente provindo de um sonho, o qual me fez exercer tanta força que fui capaz de destruir toda a casa. Naquele dia, ambos meus pais faleceram por causa do desmoronamento, e foi pouco tempo depois que conheci a fúria de Lionel. Era nada mais do que um bom ator, esbravejou por longos minutos sobre o que aconteceu, até virar-se para mim com escárnio.

Era como alguém que finalmente entendia a verdade, ou pelo menos a sua própria verdade. Minha memória para esse momento é infalível, pois sou capaz de me lembrar da forma áspera com que falou comigo, sua língua como a de uma víbora que encurrala sua presa, acusando-me de ter derrubado a casa de propósito. Disse que eu não era uma farsa, pelo menos não por inteiro, pois eu não era e jamais seria o messias que salvaria a terra, meu poder não trazia a cura, mas a destruição, eu era o oposto, a imagem do anticristo, o que veio a terra causar o seu fim.

Para um menino de dez anos que era maltratado como farsante por aqueles que o haviam adorado, receber aquelas palavras do homem que durante algumas semanas estava lhe idolatrando fora o maior do impactos. Não pude sofrer a morte de meus pais naquele momento, pois ele me expulsou dos restos de minha própria casa aos gritos, acusando-me de ser o anticristo. Os vizinhos que acordaram com o barulho do desmoronamento olhavam assustados com as mãos a cobrir as bocas. Os olhos arregalados, escondendo os filhos daquele que um dia brincou com eles pelas ruas. Chertan não mais seria visto em Istambul.

Abandonei a cidade aos prantos, um misto de ódio de mim mesmo e dor pelas palavras duras, a dor da perda porém, havia sido suprimida pela situação em que aquilo aconteceu, algo que só senti muito tempo depois, quando me deixei entender o que havia acontecido. Corri, como nunca antes havia corrido, até que o sol nascesse e meu corpo tombasse sobre um monte de areia ao longe da cidade. Tolo fui, mas não me culpo, como poderia?

Acordei com os olhos fixos em um par de botas a minha frente. O susto pela aparição me fez saltar, e pude enxergar algo que jamais esperaria. Era um homem da mesma altura de Lionel, com os cabelos da mesma cor dos seus, um marrom amarelado, porém muito mais curtos. Lionel trajava robes longos, já este homem vestia calça, botas e uma blusa presa ao corpo por pedaços soltos de proteções metálicas. Só muito tempo depois, já livre de sua manipulação pude me dar conta de que aquele era de fato Lionel, o homem que se aproveitou de minha fraqueza.

Disse ser Altair, trajava uma máscara vermelha estranha que lhe cobria todo o rosto, e citou saber quem eu era. Disse que não entendia como eu poderia ter aceitado que me chamassem de messias, e que era um ultraje eu nunca ter sido treinado da forma correta. Que para cumprir meu objetivo e meu destino na terra eu teria de me tornar mais poderoso, aprender a usar o poder que me foi dado e traçar meu rumo. Não sei explicar o motivo, mas diante de tamanha frustração que vivia naquele momento, resolvi aceitar meu fardo.

Não mais seria o menino que jogariam frutas podres, seria o que Altair e Lionel disseram que o destino queria que eu me tornasse, o anticristo, aquele que vem ao mundo para o destruir por inteiro. O treinamento começou naquele mesmo dia, comecei a entender ali o poder que estava em minhas mãos. Altair me explicou que se tratava do cosmo, suas propriedades e capacidades, além de talhes sobre expansão e supressão e coisas diversas.

O treinamento fora guiado como o de um aprendiz de Cavaleiro, pois Altair era como um renegado. Soube mais tarde por fontes conhecidas que ele havia tentado se tornar um Cavaleiro de Atena, mas por sua loucura e por sua índole duvidosa, fora impossível que isso acontecesse de fato, forçando-o a reclusão. Quando soube de mim, o menino prodígio capaz de despertar o cosmo aos sete anos de idade, soube que teria ali uma joia nova a lapidar para seu exército, com o qual usaria para destruir Atena e o Santuário.

Foram três anos muito longos de aperfeiçoamento de habilidades com o cosmo e não apenas isso, de aperfeiçoamento físico. Altair era rígido, gostava que o corpo e a mente trabalhassem em uníssono, como uma unidade apenas, que pensava e agia em um único momento, tendo a força do cosmo ao seu favor para intensificar não só as habilidades físicas, mas também para aproveitar do poder que se recebia com aquela dádiva. Enquanto aprendia as bases de minhas capacidades, era instruído sobre outros usuários do cosmo que de acordo com Altair “surgiam” pelo mundo quando o anticristo vinha à terra, o objetivo deles de acordo com o mentor era apenas exterminar minha existência, de forma que eu fosse incapaz de cumprir meu destino.

O que saiu daquilo tudo foi um menino de apenas treze anos, cuja mente havia sido manipulada e forçada a existir para aniquilar todos que fossem contra seu suposto destino, corrompido pelo ódio que a humanidade teve por ele quando não fora capaz de cumprir com suas expectativas, ódio esse alimentado dia após dia por Altair, que fazia questão de pôr o menino contra o mundo, como uma arma pronta para o destruir por inteiro assim que fosse possível. Às vezes é difícil crer que fui tão tolo a ponto de aceitar aquilo de forma tão simples, mas faz parte do amadurecimento errar, e mesmo que eu tenha errado muito, mais tarde fui capaz de compreender tudo que se passou a minha volta.

Começa a partir daí o que até hoje tento retribuir. Quanto o treinamento base foi dado por encerrado, e Altair decidiu que minhas capacidades eram suficientemente fortes para que eu fosse capaz de entrar em combate real com outro usuário do cosmo, o homem resolveu iniciar sua caçada louca atrás de todos que fossem capazes de despertar o cosmo em seu corpo. Não era como se fossemos atrás de Cavaleiros reais, pessoas dignas que haviam batalhado e provado serem fortes o suficiente para trajar suas armaduras, era exatamente o contrário disso, o primeiro passo de Altair, e o qual ele manipulava-me a seguir, era aniquilar aqueles que despertavam o cosmo e não eram aptos a usar armadura, ou sequer ainda haviam começado um treinamento.

Covardia no mais puro dos sentidos. Jamais me esquecerei de cada um daqueles muitos que atacamos sem motivo algum, por puro capricho da inveja de Altair de outros usuários de cosmo, como se quisesse os impedir de se tornarem Cavaleiros, por ele mesmo ter sido incapaz. Lembro-me do primeiro, foi na Georgia, país vizinho a Turquia, onde nasci, e onde treinamos enquanto vagávamos de cidade em cidade, como nômades, incapazes de permanecer por muito tempo em apenas um lugar.

Eu completava quatorze anos quando finalmente chegamos em uma cidade chamada Gori. Era o caso de um homem que ficou famoso, tinha cerca de vinte e cinco anos e havia despertado o cosmo muito tardiamente quando tentou salvar a esposa e a si mesmo do ataque de um grupo de marginais que os perseguiu durante uma noite. Por ter descoberto sua capacidade muito tarde, era improvável que o homem se tornasse qualquer coisa, e talvez ainda diante da dor da perda de sua esposa, ele sequer pensava no que havia acontecido.

Buscamos informações em um bar local, Altair era bom em ludibriar os outros e logo fez amizade com o homem do balcão, o qual lhe passava informações como se fossem amigos de infância. Era quase um dom cósmico de mentir, que inclusive foi o que me fez ficar longos seis anos ao lado dele, e mais cinco depois disso seguindo seus princípios. Eu fazia o papel de seu filho, e tinha de explicar sempre, em cada local que chegávamos que meu “pai” havia queimado o rosto e por isso usava aquela máscara esquisita, a qual eu mesmo nunca vi sair, apesar de saber mais tarde como era seu rosto ao deduzir que era Lionel.

O homem que havia despertado o cosmo chamava-se Bairon, era um lenhador que vivia na periferia da cidade, próximo a mata. Na noite seguinte fomos lá. Altair chegou batendo na porta sem sequer parecer preocupado em disfarçar suas intenções, disse ao homem que éramos usuários do cosmo assim como ele, e que poderíamos lhe treinar e lhe ensinar a usar aquele poder que ele havia despertado dentro de si. O homem, claramente bêbado e ainda sofrendo pela perda da esposa de forma brutal, bateu a porta sobre o rosto de Altair, expulsando-nos de suas terras e nos mandando ficar o mais longe possível de sua vida.

Foi seu pior erro desde então. Altair estourou a porta de Bairon com um único chute, uma pancada com a sola do pé que fez com que a madeira atravessasse o pequeno cômodo de entrada até se chocar com a parede do lado oposto. O dono da casa reagiu, tentando socar o invasor, mas apenas recebeu um outro chute na lateral do corpo que o fez cair confuso. Era uma presa fácil diante do mentiroso bem treinado, alguém que sequer sabia como havia usado tamanha energia em um momento de desespero, que apenas queria tentar entender o que tinha acontecido e seguir sua vida, mas Altair não se importava, tinha um objetivo insano a cumprir, e o faria.

Esperava aquela noite apenas acompanhar, assistir enquanto Altair me mostrava como cumpriríamos nosso “dever” de acordo com o “destino” de ser um anticristo, e foi aí que cometi também meu pior erro até aquele momento, achar que tudo correria bem. Quando vi ele sair pelo arco onde antes havia uma porta pensei que teria terminado com o homem, entretanto, Altair pôs a mão em meu ombro e pude perceber que por trás da máscara, estava sorrindo. Eu que até então estava aguardando ali fui intimado a fazer o serviço.

Seria como um teste final para o treinamento que fora feito durante todos esses anos: finalizar o inimigo e demonstrar que havia aprendido a usar meu cosmo. Tenho de admitir, o homem sabia motivar alguém a fazer as coisas, mesmo que elas fossem completamente deturbadas. Palavras como “cumpra seu destino” e “mostre para os que lhe deram esse poder que você é o anticristo, o único, que irá trazer o caos e reinar sobre a terra” saíam de sua boca como se fosse um chamado para o lanche. E fui, pilhado pelas ideias de meu mentor e pela ânsia de descobrir minha verdade, por minha ideologia em prática.

Quando adentrei a casa Bairon já estava preparado para revidar, seu machado em mãos e um olhar frio de quem já não aguentava mais aquela baboseira toda. A surpresa do golpe repentino me fez desviar no último momento, deixando que a lâmina da arma traçasse um corte profundo sobre a lateral esquerda de minhas costas, em sua parte inferior. Senti a ardência do metal cortando a carne e uma pontada de dor forte ao posar os pés no chão após saltar para tentar evitar o golpe, o sangue quente escorreu rápido, fervendo minhas veias e trazendo-me uma fúria que até então desconhecia.

Me lancei sobre Bairon com o corpo levemente inclinado para frente, como se buscasse ganhar mais velocidade. Cortei o espaço que nos separava muito mais rápido do que ele conseguia reagir, atingindo-lhe a boca do estômago com um soco dotado de toda a energia cósmica que meu corpo conseguira juntar naquele curto espaço de tempo. O homem foi lançado para trás, carregando os móveis que atingiu pelo caminho até parar finalmente, caído já em outro cômodo. Minha mente buscou memórias dos búfalos na primeira vez que o cosmo surgiu em meu corpo, que foram arremessados metros de distância, assim como Bairon.

Senti o poder correr em minhas veias como nunca antes, era o cosmo, a adrenalina do combate que me fazia implorar por mais. Atravessei os cômodos como um raio, o corpo e a mente trabalhando a uma velocidade impressionante, cravando a sola do pé contra o antebraço de Bairon com uma força que me fez sentir os ossos se partindo. Quando o braço entortou em um ângulo estranho fazendo o machado se soltar, foi a vez de meu punho direito voltar a descer com toda força que consegui reunir, mirando o centro do rosto de meu inimigo e fazendo com que a cabeça do mesmo atravessasse a parede onde antes estava apoiada. O ferimento foi fatal, o que já era esperado, e ali, tirei minha primeira vida.
E daí em diante, assim seguiu. Viajávamos de canto em canto do mundo, atrás de boatos e notícias de novas pessoas que despertavam, ou que já haviam despertado o corpo. Em qualquer uma das situações, as batalhas eram injustas e covardes. Tirávamos vidas de crianças, meninos, meninas, mulheres e homens, apenas para que o ego louco de Altair se inflasse, e para que eu achasse que estava cumprindo meu papel como o anticristo. Foi apenas quando completei meus dezesseis anos que houve o incidente.

Era uma caçada como outra qualquer, tínhamos viajado até a Romênia, onde boatos contavam de um rapaz, não mais velho do que eu, que havia descoberto suas capacidades e habilidades cósmicas, e ao que deu a entender já vinha treinando. O que não esperávamos era o que o jovem fosse de fato já muito forte. Treinava junto de um tutor, que havia saído um tempo para cumprir alguma missão própria, encarregando o garoto, chamado Thomas, de treinar por si só.

Foi a mais dura de todas as batalhas que travamos até então. Muito mais habilidoso, e já competente com suas técnicas, o jovem lidou bem com ambos, batalhando de igual para igual. Um de seus golpes me atingiu com força, fazendo com que eu rolasse para longe, estava ferido como nunca antes havia acontecido, pelo menos não com aquela gravidade. Altair fora derrubado logo em seguida, e quando esperei que Thomas fosse lhe dar o golpe final, ele avançou contra mim. Um chute perfeito entre minhas costelas que me fez rolar até a beira do precipício. Batalhávamos no alto de uma enorme montanha que era dividida por um rio de correnteza arrasadora. Àquela tarde, caí.

A correnteza era fortíssima e arrastou meu corpo fraco para longe dali. Não sei dizer quanto tempo viajei entre as águas, mas foi muito. Acordei já sem ter noção de onde estava, sabia que havia sido derrotado e tinha sorte por estar vivo. Altair, por sua vez, não devia ter tido a mesma sorte, ou pelo menos, eu achei que não. De fato, não me importei muito com a situação de meu atual tutor. No tempo que estivemos juntos, aprendi com ele como fazer para seguir os rastros dos que despertavam o cosmo no corpo, e poderia fazer aquilo sozinho, bastava apenas me recuperar.

Naquele momento, livre de Altair, me via totalmente consumido por sua loucura. Eu tinha em mente um único e claríssimo objetivo: completar a missão que me havia sido dada. E assim o fiz, logo no dia seguinte a minha recuperação parti, descobri que ainda estava na Romênia, apenas mais para o sul, por onde o rio me arrastou, e não voltei, mas segui em frente, para cumprir com meu destino de anticristo, em busca da destruição daqueles que seriam, em minha cabeça, treinados para me aniquilar.

Continuei batalhando, um a um, derrotava meus inimigos, treinando nos intervalos de tempo que me permitiam, e não acho necessário entrar em detalhes. Lhes afirmo nesse momento, tirei mais vidas do que jamais poderei salvar, pois não seria justo citar apenas os que realmente matei, mas seus familiares, amigos e próximos, todos que sofriam quando minhas mãos arrancavam as chances de alguém por pura loucura. Minha fraqueza era o que me carregava, e por muito tempo fui assim, até o dia em que minhas investigações me guiaram até um homem em especial, já seis anos após o desaparecimento de Altair de minha vida: Haziel, um Lemuriano que residia na Grécia, e quem já possuía o cosmo a muito, muito tempo, encarregado de treinar jovens.

Era afinal, o alvo perfeito, ou não era? Ao invés de simplesmente atacar os meninos novos, poderia exterminar o culpado por seu treinamento, aquele que os prepararia. Tolo fui, mas fico feliz, foi talvez a primeira burrice bem feita que o destino me fez realizar. Foi fácil o encontrar, ou como gosto de acreditar até hoje, ele quem me encontrou. Estava em uma grande planície, nas ruínas de uma construção típica grega, com suas colunas jônicas a enfeitar o ambiente, ainda de pé após a ação dos tempos.

Pela primeira vez após tanto tempo, enquanto começava o embate com aquele homem, pensei no que Altair teria feito se me visse desafiando um verdadeiro mestre do cosmo, ao invés de um jovem qualquer. Pela primeira vez eu sentiria o verdadeiro prazer da batalha, com alguém que era capaz de reagir à altura, assim como aquele que me havia separado de meu tutor tanto tempo atrás. E foi um verdadeiro atropelamento. Mal consegui desferir o primeiro golpe antes de ter meu corpo completamente inutilizado. A força de Haziel era algo tão superior que sequer vi como me atingiu. Cada osso, músculo e célula de meu corpo gritava por socorro, lembro-me de estar caído com a boca aberta, mas ser totalmente incapaz de gritar ou de emitir sons. E o mesmo homem que me humilhou, foi quem me tratou.

No começo, desconfiei. Eu havia tentado o matar, e após se provar claramente muito superior a mim, Haziel me carregou até sua morada, onde cuidou de minhas feridas com seu cosmo, e me alimentou até que me sentisse melhor. Não falava, porém, uma palavra sequer comigo. Olhava-me como se avaliasse um livro, crítico e curioso ao mesmo tempo, parecia ser capaz de ler cada mínimo pedaço de meu ser apenas de me encarar, e claro que a telepatia que possuía, a qual eu só fui saber mais tarde, agia a todo o momento, entendendo quem eu era, buscando vestígios de minha história em minha memória, e compreendendo o que se passava naquele momento.

Quando eu já estava totalmente curado, conseguimos pela primeira vez conversar. As primeiras palavras daquele homem para mim foram surpreendentes, ele não me repreendeu por tê-lo atacado, ou sequer pareceu irritado com esse fato, e como se isso já não bastasse, ele parecia saber tudo que havia acontecido até então, o que de fato sabia. “Altair é como ele gosta de ser chamado?” foi o que perguntou, e sua voz cortou por minha pele como a lâmina fria de Bairon, meu primeiro inimigo, ao quase fatiar minhas costas.

Aos poucos, começava a entender quem era aquele homem. Ele havia sido quem treinou Altair, muito e muito tempo atrás, quando o mesmo tentara se tornar um Cavaleiro, e foi também quem o expulsou. Claro, minha mente havia estado sobre a loucura daquele homem desde os dez anos de idade, não seria agora de um dia para o outro que eu simplesmente aceitaria, mas dia após dia, sempre depois de me explicar coisas, Haziel me dizia para ser paciente, pois um dia eu teria a prova necessária para acreditar em suas palavras. Foram alguns meses ali, não sei dizer até hoje o motivo exato de ter ficado, mas agradeço aos deuses por ter aceitado. Cada vez que ouvia sobre Atena e outros deuses e seus mitos, apenas me fazia sentir nojo de Haziel e sua mitologia pagã. Era contra minha natureza, minhas crenças e tudo que me fora ensinado até então, e já tinha vinte anos de idade, não era uma criança qualquer como antes, era apenas teimoso como uma.

Assim foi até uma noite fatídica em que um homem veio atrás de Haziel, um homem com um desejo de vingança e com o único intuito de derrotar o Lemuriano. Insistindo que eu ficasse dentro de casa, lá permaneci, apenas ouvindo e assistindo o que se desenrolava lá fora. Acontece, porém, que o assassino era Altair, que havia finalmente vindo atrás de seu antigo mestre em busca de vingança. Não demorou muito para que começassem a travar combate, Haziel deixou a entender que havia batalhado contra mim pouco tempo atrás, e Altair recebeu a notícia com satisfação.

Foi quando me toquei da verdade. Enquanto batalhavam, Altair despejava seu ódio sobre Haziel, contando tudo que havia lhe escondido até então. Disse que eu havia sido apenas uma ferramenta em suas mãos, que fez com que eu acreditasse que matei meus pais para que eu fosse capaz de lhe seguir como dito anticristo, todas as mentiras contadas eram despejadas sobre mim naquele momento, e por mais que minha mente implorasse para agir, para ir lá e arrancar a vida de Altair como ele tantas vezes fez que eu tirasse de outros, meu corpo e minha alma se recusavam a se mover.

Senti a dor da perda de meus pais pela primeira vez, assassinados por um homem louco que, consumido pelo ódio de não ter se tornado um Cavaleiro, seguiu em sua cruzada por vingança contra o Santuário, usando-me a seu favor. No fim daquele dia, Altair fugiu, incapaz de derrotar Haziel, e eu fui acolhido pelo Lemuriano, que contou-me tudo que havia acontecido. Tratou-me como uma vítima de meu próprio destino, mas não permitiu que eu me martirizasse ou me fizesse de coitado diante de meu passado, obrigou-me a reagir o mais rápido possível, e foi quando voltei aos meus treinamentos, agora tutorados pelo Lemuriano.

Pela primeira vez em minha vida até então, aprendia a teoria real do Cosmo e o que ele significava, sem baboseiras religiosas loucas sobre salvadores e destruidores. Compreendi o que eu era, um guerreiro, e aceitei meu ser acima de tudo, não mais como o que salvaria ou destruiria a terra, mas como aquele que dedicaria sua força à um objetivo maior. Me entreguei de corpo e alma aos ensinamentos de Haziel, e com o dom cósmico que já tinha até então, ao ter a teoria e a compreensão do que significava meu poder, pude me desenvolver de uma forma inexplicável.

Fui preparado, literalmente, para um momento que viria algum tempo depois, quando já tinha meus vinte e três anos completo. Treinei e me tornei o homem que hoje sou, com as habilidades e poderes que fui capaz de desenvolver diante de minhas capacidades, que não deixam a desejar, mas ainda muito tenho a evoluir. Já posso falar agora de pouco tempo atrás, na verdade, apenas alguns dias, quando o homem chamado Altair voltou a aparecer em minha vida. Foi o que gosto de chamar de confronto final, quando o homem que me tornei enfrentou com coragem e determinação aquele que um dia fui. Uma experiência necessária e renovadora, como um grande obstáculo a ser vencido. Eu havia me tornado o que Altair tanto odiava, um aprendiz de Cavaleiro, um servo de Atena, a deusa que me acolhia em seu Santuário com sua luz, mesmo sem nunca a ter visto, ou sequer ter certeza concreta de sua existência, o mais simples dos conceitos já me bastava àquela altura.

Poderia contar que foi um combate épico, que durou dias e dias de derramamento mútuo de sangue, mas nada estaria fazendo além de aumentar fatos e contar mentiras. Altair havia me treinado o suficiente para que eu me tornasse um igual, e quando Haziel me ensinou tudo que faltava, tornei-me muito superior ao meu antigo tutor. A batalha foi rápida, derrubei meu inimigo em instantes, causando-lhe um ferimento fatal ao atravessar o punho em seu pulmão. Deixei porém, que partisse, para sofrer longe dali. Não o matei naquele momento por simples receio.

Sei, e sabia naquele momento, que se Altair desmoronasse morto a minha frente, eu me obrigaria a tirar sua máscara e então finalmente seria capaz de ver o rosto de Lionel novamente, e não queria e nem quero enfrentar novamente os fantasmas de um passado o qual já atravessei. Vencer o homem que me corrompeu foi o último de meus obstáculos, e ao provar que meu desejo era servir a Atena para compensar os males que fiz em minha vida, a Armadura de Prata de Cérbero aceitou-me como quem sou. Hoje, poucos dias depois de ter me sagrado Cavaleiro, algo que Altair jamais conseguiu, sinto-me renovado e capaz de reerguer meu nome para enfrentar o momento de minha morte. Que Alá tenha piedade de minha alma, e que Atena rogue por mim quando chegar o momento de partir, mas até lá, batalharei como um de seus soldados em nome da deusa da justiça.


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Re: Ficha - Chertan de Cérbero

Mensagem por Kenshin Himura em Dom Abr 12, 2015 9:51 pm

Ficha aprovada

Bom, não há nada o que contestar. Encontra-se ótima, não pecando em nenhum detalhe. Altere seu nome e seja bem-vindo ao reino de Athena!

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